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Tsering Paldron é convidada para dar seminários, palestras, cursos e orientar retiros em Portugal, França, Bélgica, Inglaterra e Tahiti. Escreveu dois livros sobre budismo “A arte da vida” e “A alquimia da dor” e um terceiro, “A dignidade e o sentido da vida” sobre cuidados paliativos em colaboração com outros autores. Publicou um livro de contos infantis “As aventuras de Tachi, o grilo tibetano”. As suas mais recentes publicações são “O Hábito da Felicidade” e “Karma, a causalidade dos atos“. Vive actualmente no Porto onde dinamiza a Bodhicharya Portugal.

Era muito nova quando me apercebi de que não tinha queda para ser feliz. Embora fosse ainda uma miúda, já me apercebera de que a felicidade não dependia tanto dos factores externos como nós pensamos. Afinal, mesmo aqueles a quem aparentemente nada faltava, não eram necessariamente felizes. Depois de alguma investigação concluí assim que, se não era feliz, era simplesmente por falta de jeito.

Não foi uma constatação muito agradável. Sobretudo quando ainda se tem a vida toda pela frente e muitas probabilidades de não a conseguir viver da melhor forma. Penso que foi sobretudo a consciência aguda da impermanência e do facto de que nada era fiável ou duradouro que esteve na origem da minha crise existencial entre os 16 e os 19 anos e da minha procura ansiosa de algo que fizesse sentido. Recusava-me a aceitar que a vida pudesse ser apenas uma ladainha de dias e noites, uma sobrevivência morna, uma sucessão de imponderáveis à espera da única certeza: a morte. E que tudo o que fazemos fosse apenas uma forma, mais ou menos disfarçada, de passar o tempo…

Nasci em Lisboa, na  época sombriada ditadura. Portugal estava claramente duas décadas atrás do resto da Europa, onde a juventude vivia a revolução hippie. E embora o desejo de ir participar naquela colorida efervescência que iria mudar o mundo (achávamos nós), a verdade é que algo me prendia sempre a Portugal. Tinha 19 anos e ainda era menor (naquela altura a maioridade alcançava-se aos 21 – lembram-se?). Por isso tive de mentir à minha mãe para poder deixar Portugal e juntar-me a um amigo que já tinha ido viver para a Bélgica.

Foi lá que, em Novembro de 1973, me cruzei com o budismo tibetano. Comecei por ouvir algumas palestras. E tudo fazia tanto sentido, tudo abria tais horizontes, nunca dantes sonhados, que aderi com aquele entusiasmo próprio de quem é novo e ainda não acumulou receios. Não havia nada mais importante na vida, para mim, do que galgar esses espaços que se abriam e ir à descoberta da plenitude interior que se adivinhava por entre as palavras que ouvia.

Tornei-me budista em 1974 e, entre 1984 e 1988, fiz o tradicional retiro de três anos na Dordogne, França, sob a direcção espiritual de Dudjom Rinpotché, Dilgo Khyentsé Rinpotché dois dos maiores Lamas contemporâneos (entretanto já falecidos), e Tsetrul Pema Wangyal Rinpotché. Fazer esse retiro foi um dos grandes marcos da minha vida.

O retiro de três anos (três meses e três dias) é um retiro de grupo centrado na prática da meditação e no estudo dos textos. Com uma média de 11 horas diárias de meditação e orações, é uma oportunidade única para aprendermos a conhecer o nosso espírito e aplicar os métodos de transformação que o budismo oferece.

Tive a sorte de receber ensinamentos e iniciações de muitos Lamas, de fazer algumas viagens ao Oriente (para assistir a eventos realmente excepcionais) e duas peregrinações aos lugares sagrados do budismo na Índia, Nepal e Butão. Em 1992 comecei a ensinar o budismo e essa tem sido a minha principal actividade desde então.

Voltei para Portugal em 1996 onde tenho vivido, apesar de continuar a viajar bastante. Em 1999 tomei votos laicos com Trulshik Rinpoche. Estou ligada à Bodhicharya International, criada por Ringu Tulku Rinpoche. Quando revejo a minha vida, considero-me uma pessoa muito afortunada e sei o quanto devo aos mestres que tiveram a bondade de me ensinar.

1 Comment

  1. Olá Tsering,

    Talvez não se recorde de mim. Sou o Zé Luís. Há algum tempo (seguramente há mais de um ano) que não compareço no Centro Budista do Porto. Ia lá com alguma regularidade, ora nas meditações da Margarida, à segunda-feira, ora para assistir às suas deliciosas palestras.
    Ao ter passado os olhos pelo seu bonito percurso de vida, que acima tão bem descreve, não pude deixar de reparar com mais atenção quando mencionou: “O retiro de três anos (três meses e três dias)…”. Achei esta circunstância muito curiosa, porque a grande paixão da minha vida é mais nova do que eu precisamente três anos, três meses e três dias. Namorámos três anos e andávamos sempre com um casal de namorados. O rapaz é primo direito da minha namorada e é três anos mais novo do que eu. Um dia esse casal resolveu fazer as contas para ver qual seria a diferença de idade entre os dois. Para espanto de nós os quatro, também eles fazem três anos, três meses e três dias de diferença.
    Ao contrário de nós os dois, eles casaram e dão-se lindamente.
    Uma última nota: têm três filhos.

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