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Entrelaçamento

Às vezes, sentimos que fazemos parte de algo maior. Numa multidão silenciada pela beleza; no tremor de um acontecimento mundial que chama a atenção; caminhando por uma floresta viva com o murmúrio de velhas árvores; ou simplesmente sentados em meditação — os contornos rígidos do nosso “eu”  suavizam-se. Algo se solta. E a alegria silenciosa que sentimos deveria dizer-nos algo sobre o quão doloroso é realmente o egocentrismo.

Algumas ideias sobre o que significa ser «espiritual» colocam a mente acima da matéria — elevando uma, descartando a outra. No entanto, essa sensação de conexão que às vezes experimentamos não se limita aos seres humanos, nem mesmo ao que chamamos de vida «senciente». Ela estende-se às florestas e aos oceanos, às pedras e ao vento, e por que não a toda a existência? Por que esta chávena, esta mesa, este computador seriam excluídos? Como poderiam ser, se surgem do mesmo tecido, da mesma dinâmica de causas e condições?

As coisas não são tóxicas. O que nos prende não é o contacto, mas a posse. Como Tilopa disse na sua famosa frase: “Filho, não são as aparências que te prendem, é o apego. Corta o teu apego, Nāropa.”

Quando a ternura natural do coração emerge, o cuidado com todas as coisas surge sem esforço. Tocamos tudo com delicadeza e não apenas as “nossas” coisas. Movemo-nos pelo mundo com cuidado, porque já nada parece suficientemente separado para ser usado sem respeito.

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